A relação entre emoções e alimentação na infância (Título original: The development of emotional overeating: a longitudinal twin study from toddlerhood to early adolescence.)

Um estudo longitudinal com gêmeos que acompanha a relação entre emoções e alimentação da primeira infância ao início da adolescência.

Vaishnavi K. Madhavan, Zeynep Nas, Jacqueline Blissett, Clare Llewellyn e Moritz Herle.

12/28/20259 min read

Criança pequena em imagem ilustrativa sobre alimentação e comportamento alimentar
Criança pequena em imagem ilustrativa sobre alimentação e comportamento alimentar

Revista: International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.

O objetivo deste artigo foi investigar como o comer emocional se desenvolve desde os primeiros anos de vida até a adolescência e qual é a participação dos fatores genéticos e ambientais nesse comportamento.

Comer emocional: como a relação com a comida começa a ser construída na infância

Você já percebeu como, muitas vezes, a comida aparece em nossa vida não apenas para matar a fome?

Um doce para consolar uma criança que está triste. Um alimento oferecido para fazê-la parar de chorar. Uma guloseima como prêmio por ter se comportado bem. Ou aquele hábito de procurar alguma coisa para comer quando estamos ansiosos, frustrados, cansados ou entediados.

Essas situações, tão comuns no cotidiano das famílias, levantam uma questão importante: será que a maneira como aprendemos a lidar com nossas emoções também pode influenciar nossa relação com a comida?

Um estudo publicado no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, realizado a partir de dados do Gemini Twin Study, investigou justamente como o comer emocional se desenvolve desde os primeiros anos de vida até o início da adolescência e qual é a participação dos fatores genéticos e ambientais nesse comportamento.

O que é comer emocional?

Chamamos de comer emocional a tendência de aumentar a ingestão de alimentos em resposta a determinadas emoções, especialmente emoções negativas, como tristeza, ansiedade, medo, irritabilidade, estresse e frustração.

Nesse caso, a vontade de comer não surge necessariamente porque o organismo precisa de energia. A comida passa a ser utilizada, consciente ou inconscientemente, como uma forma de lidar com aquilo que estamos sentindo.

É importante diferenciar a fome fisiológica, que corresponde à necessidade biológica de energia e nutrientes, daquilo que podemos chamar de fome emocional, quando o desejo de comer está relacionado principalmente a um estado emocional.

Isso não significa que toda pessoa que come quando está triste tenha um transtorno alimentar. O comer emocional pode aparecer em diferentes intensidades e em diferentes momentos da vida. O mais importante é compreender como esse comportamento se constrói.

A criança aprende a usar a comida para lidar com as emoções?

Uma das hipóteses discutidas pelos pesquisadores é a chamada teoria psicossomática. Ela propõe que, especialmente nos primeiros anos de vida, a criança ainda está aprendendo a diferenciar as sensações físicas da fome das sensações provocadas pelas emoções.

Imagine, por exemplo, uma criança pequena que chora ou se irrita e, repetidamente, recebe algum alimento para se acalmar. Em outra situação, está frustrada e ganha um doce. Quando está entediada, recebe alguma coisa para comer.

Nenhuma dessas atitudes, isoladamente, significa que os pais estejam fazendo algo errado. Muitas vezes, são respostas espontâneas e bem-intencionadas de quem quer confortar uma criança. O problema pode surgir quando esse padrão se repete. A criança pode começar a aprender que comer traz alívio, conforto ou prazer diante de uma emoção desagradável.

Outra explicação apresentada pelos pesquisadores é o condicionamento operante. Se comer produz uma sensação agradável ou diminui temporariamente um desconforto emocional, aumenta a possibilidade de que a pessoa repita esse comportamento quando vivenciar uma situação semelhante no futuro.

Assim, pouco a pouco, a comida pode passar a fazer parte do repertório utilizado para regular as emoções.

E essa talvez seja uma das mensagens mais importantes desse estudo: a relação da criança com a comida não é construída apenas pelo alimento que oferecemos, mas também pelas experiências emocionais que acontecem ao redor da alimentação.

O que os gêmeos podem nos ensinar?

Para entender melhor a influência da genética e do ambiente, os pesquisadores acompanharam crianças do Gemini Twin Study, uma grande coorte britânica de gêmeos.

O comportamento alimentar foi avaliado em diferentes momentos do desenvolvimento: aos 16 meses, aos 5 anos e aos 12 anos. Os pais responderam a questionários sobre o comportamento alimentar dos filhos, utilizando a escala de comer emocional do Child Eating Behaviour Questionnaire (CEBQ).

A comparação entre gêmeos monozigóticos e dizigóticos permitiu estimar a participação de três componentes: fatores genéticos, ambiente compartilhado, como família e experiências comuns, e ambiente não compartilhado, que envolve experiências individuais diferentes entre irmãos, além do erro de medida. Os resultados são particularmente interessantes.

Na primeira infância, o ambiente compartilhado teve participação muito maior nas diferenças observadas no comportamento. Aos 16 meses, essa estimativa foi de aproximadamente 89%, enquanto a contribuição genética estimada foi de cerca de 9%. Aos 5 anos, o ambiente compartilhado ainda representava aproximadamente 81%.

Aos 12 anos, porém, esse cenário se modificou: a contribuição estimada do ambiente compartilhado caiu para cerca de 41%, enquanto a contribuição genética aumentou para aproximadamente 34%.

Esses números não significam que “89% do comer emocional de uma criança seja causado pela família” ou que “34% seja causado pela genética”. Eles representam estimativas da contribuição desses componentes para as diferenças individuais observadas naquela população.

O que o estudo sugere é que a influência do ambiente familiar parece ser especialmente importante nos primeiros anos de vida, enquanto outros fatores (incluindo diferenças individuais e fatores genéticos), passam a ter maior participação à medida que a criança cresce.

A relação com a comida não é algo imutável

Esse resultado traz uma mensagem muito importante para pais e profissionais que acompanham crianças. O comportamento alimentar está em construção.

Na primeira infância, a família tem uma participação enorme nesse processo. À medida que a criança cresce, aumenta sua autonomia, surgem novas experiências, novas relações e outros ambientes passam a influenciar suas escolhas. Amigos, escola, redes sociais, experiências individuais e o próprio desenvolvimento da criança passam a fazer parte desse processo. Por isso, não devemos enxergar o comportamento alimentar como algo determinado e imutável desde os primeiros anos de vida. Pelo contrário: há espaço para aprendizado, mudança e construção de uma relação mais saudável com a comida.

Quando a comida passa a ter uma função emocional

Os pesquisadores também discutem diferentes práticas parentais que podem estar relacionadas ao desenvolvimento do comer emocional. Uma delas é o uso da comida como recompensa. Quando oferecemos determinado alimento para premiar um comportamento, ele pode adquirir um significado emocional que vai além da nutrição. Outra é utilizar a comida para acalmar.

Uma criança está triste e recebe um doce. Está frustrada e ganha um alimento de que gosta. Está chorando e recebe alguma coisa para comer.

Mais uma vez, não estamos falando de uma situação isolada. O que merece atenção é a repetição do padrão.

Também é discutida a questão do controle excessivo da alimentação. Restrições e controle muito rígidos podem interferir na relação da criança com os alimentos e, segundo estudos citados pelos autores, também estão associados a comportamentos alimentares emocionais.

E existe ainda algo muito poderoso: o exemplo dos pais.

A criança observa como os adultos lidam com suas próprias emoções. Se diante do estresse, da ansiedade, da tristeza ou da frustração os adultos frequentemente recorrem à comida para se sentir melhor, a criança pode aprender esse mesmo padrão. É por isso que educar para uma relação saudável com a comida envolve muito mais do que ensinar o que pode ou não pode ser comido. Envolve também ensinar, pelo exemplo, como lidar com as emoções.

A importância da alimentação responsiva

É nesse contexto que ganha importância o conceito de alimentação responsiva.

Alimentar de forma responsiva significa observar e respeitar os sinais de fome e saciedade da criança, oferecendo alimentos adequados ao seu desenvolvimento, dentro de uma rotina e de um ambiente que favoreçam uma relação tranquila com a alimentação. Isso significa não obrigar a criança a terminar o prato quando ela demonstra saciedade. Significa não oferecer doces como prêmio. Não utilizar a comida como punição. Não transformar o alimento na solução para tristeza, tédio ou frustração. E, principalmente, acolher a emoção sem necessariamente oferecer comida para resolvê-la.

Uma criança que está triste precisa, antes de tudo, ser acolhida. Uma criança frustrada precisa aprender, gradualmente, a lidar com a frustração. Uma criança entediada pode descobrir outras formas de brincar e se divertir.

A comida pode fazer parte da vida e trazer prazer — e deve trazer prazer. Mas ela não precisa ocupar o lugar de uma estratégia para resolver todas as emoções.

O que as intervenções com os pais nos ensinam?

Alguns estudos de intervenção citados pelos autores reforçam essa perspectiva.

No INSIGHT Trial, uma intervenção baseada em parentalidade responsiva esteve associada a menor utilização da alimentação emocional pelas mães e a menores níveis de comer emocional relatados nos bebês.

No NOURISH Trial, uma intervenção voltada às práticas alimentares dos pais também esteve associada a menores níveis de comer emocional aos 2 anos de idade, embora esse efeito não tenha permanecido nos acompanhamentos posteriores.

Esses resultados são importantes porque mostram que orientar os pais sobre como responder aos sinais da criança pode fazer parte da prevenção de comportamentos alimentares inadequados.

E o que acontece na adolescência?

À medida que a criança cresce, o mundo ao seu redor se amplia.

Ela passa a ter mais autonomia para escolher o que comer, passa mais tempo longe dos pais e sofre influência de diferentes ambientes e relações.

Nesse período, fatores individuais e genéticos parecem adquirir maior importância, segundo os resultados do estudo.

Mas isso não significa que a influência da família desapareça. Muito pelo contrário.

A forma como a criança aprendeu a interpretar a fome, a saciedade, o prazer, a frustração e o próprio alimento continua fazendo parte da sua história.

E essa história pode acompanhar o indivíduo por muitos anos.

Por que precisamos falar sobre isso hoje?

O estudo de Madhavan e colaboradores não avaliou a prevalência do comer emocional na população atual. Portanto, ele não permite dizer quantas pessoas apresentam esse comportamento hoje, nem afirmar que ele esteja aumentando. Entretanto, outros estudos recentes mostram que o tema merece atenção.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 encontrou uma prevalência agrupada de aproximadamente 44,9% de comer emocional entre pessoas com sobrepeso ou obesidade. É importante interpretar esse número com cautela: os participantes não representavam a população geral, e houve grande heterogeneidade entre os estudos.

Outra revisão sistemática, publicada em 2024 na revista Appetite, encontrou uma associação positiva entre sintomas depressivos e comer emocional em crianças e adolescentes, tanto em estudos transversais quanto longitudinais. Esses resultados não significam que uma criança triste necessariamente desenvolverá comer emocional, obesidade ou um transtorno alimentar. Eles mostram, porém, que saúde emocional e comportamento alimentar estão relacionados e precisam ser considerados conjuntamente.

E o mundo em que vivemos?

Hoje, nossas crianças crescem em um ambiente muito diferente daquele de algumas décadas atrás.

Vivemos em uma rotina marcada por pressa, excesso de estímulos, telas, publicidade, disponibilidade constante de alimentos muito palatáveis e, muitas vezes, elevados níveis de estresse familiar.

Comer diante da televisão ou do celular pode afastar a atenção dos sinais internos de fome e saciedade. A comida pode estar presente durante momentos de entretenimento, como recompensa, como distração ou simplesmente como uma forma de preencher o tempo.

Na adolescência, os próprios autores citam o uso de smartphones entre os fatores associados ao comer emocional, embora isso não permita afirmar que o celular seja sua causa. Por isso, mais do que procurar um único culpado, precisamos olhar para o contexto em que a criança está aprendendo a se relacionar com a comida e com suas emoções.

O que podemos fazer como pais e como profissionais?

Talvez a principal mensagem seja simples: Não precisamos ensinar a criança a não sentir. Precisamos ensiná-la a sentir e, gradualmente, a lidar com aquilo que sente.

A tristeza não precisa ser imediatamente compensada com um doce. A frustração não precisa ser interrompida com comida. O tédio não precisa ser preenchido com um lanche. E o bom comportamento não precisa ser recompensado com um alimento.

Precisamos oferecer presença, acolhimento, limites, rotina, oportunidades de brincar e, principalmente, modelos saudáveis de como nós, adultos, lidamos com nossas próprias emoções. Porque as crianças não aprendem somente aquilo que dizemos. Elas aprendem também aquilo que observam. E isso vale especialmente para a nossa relação com a comida.

A maneira como nós comemos, falamos sobre alimentos, lidamos com o prazer, com a culpa, com a restrição e com nossas próprias emoções pode fazer parte do aprendizado alimentar dos nossos filhos.

Uma relação com a comida que começa muito antes do prato

A alimentação da criança não começa quando colocamos o primeiro alimento em sua boca. Ela começa na relação. Começa na forma como respondemos ao choro, na maneira como acolhemos a frustração, na rotina da família, no ambiente das refeições e nos exemplos que oferecemos diariamente.

Por isso, quando pensamos em prevenção da obesidade, transtornos alimentares e outros problemas relacionados à alimentação, precisamos olhar para além do alimento.

Precisamos olhar para a criança inteira — seu corpo, suas emoções, sua família e o ambiente em que ela está crescendo. Construir uma relação saudável com a comida é, também, ensinar uma relação saudável com as próprias emoções.

E esse aprendizado começa muito cedo.